Elas estão na direção de ônibus de passageiros
Cassiani Regina Maitchuk, 50 anos, trabalha há 20 anos na Araucária Transporte Coletivo Ltda, que cuida de parte das linhas do transporte coletivo da Região Metropolitana de Curitiba. Ela era atendente de ônibus, quando o ex-chefe a viu manobrando com destreza a carreta do pai.
“Eu dirigia a carreta desde os 9 anos. Ele me desafiou a dirigir ônibus e claro que eu aceitei. Meus familiares deram risada, acharam que eu estava brincando quando falei que eu iria dirigir ônibus, mas eu não liguei”.
Cassiani disse que no começo se irritava com as piadas machistas, mas que agora não se afeta mais. “Se eles dizem ‘tinha que ser mulher’, eu respondo com ironia. Digo é que deveria estar em casa lavando roupa”. Hoje, ela dirige as linhas Interbairros 4, Campo Comprido 5 e Vila Verde em horário de pico.
“Temos que meter a cara, sabemos o nosso valor e seguir em frente. Hoje em dia, temos recebido muitos elogios. Os passageiros comentam que as motoristas mulheres nunca buzinam de tão calmas que somos”, diz, sorrindo. Hoje, o maior desafio como motorista de transporte coletivo em Curitiba não é o trânsito, mas sim os assaltos. “O último foi na semana passada. Fui ameaçada com uma faca, enquanto eles fizeram arrastão no ônibus”.
Rosana Paulina da Maia, 40 anos, trabalha na mesma empresa de Cassiani há dez anos. “Entrei como cobradora, função que exerci por dois anos e meio, mas queria ser motorista. Me deram a chance de frequentar a Escolinha da empresa e me tornei motorista. Nâo me vejo fazendo outra coisa”, conta.
Ela diz que os passageiros estão cada vez aceitando as mulheres como motoristas de ônibus em Curitiba. “A gente ouve os comentários elogiando que somos mais calmas, com menos pressa. As mulheres vão marcando o seu lugar. A mulher tem o sonho de ser motorista de ônibus, ou qualquer outra profissão, tem que seguir em frente. Eu tive sempre apoio da família, das minhas filhas, isso também ajudou muito”.
Para Rosana, o maior desafio atualmente, assim como Cassiani citou, são os assaltos: “Dá muito medo”.
Segundo o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp), dos cerca de 3 mil motoristas do transporte coletivo, pouco mais de cem são mulheres.
‘As coisas melhoraram quando parei de repetir o estilo masculino de liderar’, diz engenheira
A curitibana Julia da Costa Fortes, 39 anos, trabalha na engenharia civil desde 2007 e diz que apesar dos avanços nos últimos anos, o ambiente da profissão ainda segue bastante machista: “A mulher na engenharia não está numa situação diferente do restante das mulheres em qualquer ambiente de trabalho competitivo, infelizmente. Vemos muitos progressos na igualdade de gênero, mas temos muito o que fazer ainda”.
Ela lembra que quando trabalhou numa empresa grande de engenharia no início da carreira se sentia constantemente testada: “Eles já tinham os valores de cálculos e me pediam o mesmo cálculo para me testar. Isso não acontecia com os homens. Além do assédio, não por parte dos pedreiros, mas dos outros engenheiros. Eu não aguentei a pressão, não tive apoio dos Recursos Humanos. Foi um início da carreira bem tenso”, lembra ela. Hoje ela tem uma empresa de construção e reformas que atua em Curitiba e no Litoral catarinense. “Em 15 anos, me fortaleci, me tornei líder e depois de tentar repetir o estilo de liderança masculino, entendi que como mulher tenho um jeito diferente de coordenar, liderar as equipes. Um jeito feminino. Isso me trouxe confiança que transparece para os outros profissionais”, disse.
A engenheira Célia Neto Pereira da Rosa, que foi a primeira coordenadora do Comitê das Mulheres do Conselho Regional de Engenharia Civil do Paraná (CREA) em 2017, diz que muito foi conquistado, mas há muito para garantir a presença e o respeito das mulheres na profissão. “Com certeza, ainda temos muito a fazer. Precisamos trabalhar com as profissionais que não participam, mas estão no dia a dia no mercado de trabalho. Precisamos valorizar a nossa participação em todos os lugares, seja na associação, na inspetoria, nas comissões e principalmente como conselheiras”, explica ela. Ela ressalta que é importante trabalhar com as estudantes e mostrar que a participação delas é muito importante no crescimento de novas lideranças: “Nas escolas de Engenharia já somos um número bem maior, mas ainda temos um mito no ensino médio e muitas meninas não optam pelo desconhecimento da profissão. Esse trabalho já está começando a ser feito de mostrar que o lugar de Mulher é onde ela quiser”. No Brasil, são 200 mil profissionais registradas em atividades na engenharia.
Sobre o assédio no trabalho, ela admite que é difícil, mas o conselho tem trabalhado na conscientização dos profissionais e dos empregados em obras, mostrando que elas devem ser respeitadas. “Em algumas obras já temos mulheres trabalhando no assentamento de pisos, azulejos e acabamentos em geral e isso tem melhorado o comportamento deles. Orientamos que se houver algum tipo de assédio que seja feita a denúncia”, diz Célia.