Você está em: Página Inicial > Cotidiano
Elas dirigem ônibus, operam guinchos, comandam obras e enfrentam o machismo
Por Bem Parana | Postado em: 08/03/2022 - 09:26

Mesmo com a luta pela igualdade salarial e alguns avanços nesse quesito, as mulheres ainda recebem 78% menos do que os homens ganham. É o que mostra a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada no fim do ano passado.

Além das diferenças salariais, as mulheres que decidem trabalhar em áreas onde os homens ainda ‘dominam’ enfrentam mais resistência, pressão e também o assédio. A reportagem do Bem Paraná conversou com motoristas do transporte coletivo de Curitiba, uma operadora de guincho e uma engenheira para saber sobre os desafios, que vão desde a desconfiança, assédio e a pressão constante para provar sua capacidade.

 
 

Dhyanne Aparecida Tedesco Alves, 40 anos, trabalha há 5 anos e 3 meses na concessionária de pedágio Arteris. Ela trabalhou durante quatro anos como arrecadadora nas cabines de cobrança do pedágio de Garuva.

“Na época já era apaixonada pelo guincho, tanto que fiz a carteira para categoria D com esperança de trabalhar no guincho, porém na época o serviço era terceirizado. No ano passado quando o trabalho passou a ser direto da Arteris, o supervisor do operacional me deu a oportunidade de tentar fazer a entrevista para a vaga e consegui. Hoje trabalho faz 1 ano e 3 meses no GL (guincho leve) e amo minha profissão”.

Ela conta que no começo, muitos colegas apostaram que ela não iria aguentar, porque é um trabalho perigoso na Serra do Mar. “Estamos expostos a todo perigo, por isso apostaram que quanto tempo eu aguentaria. Agora o que me deixa mais feliz é ver a reação dos usuários quando chego para fazer o socorro, normalmente esperam um guincheiro masculino e do nada desce uma garota, eles ficam pasmos. É impressionante como a feição das pessoas mudam na hora”, conta Dhyanne.

Segundo ela, muitos perguntam se ela precisa de ajuda. “Acho que os homens ficam meio ressabiados de serem atendidos por alguém do ‘sexo frágil’”. Segundo ela, para a mulher é preciso muito mais força de vontade sempre, principalmente quando se trata de um trabalho ‘considerado’ masculino. “Temos que romper todas as barreiras”. Além de guincheira, Dhyanne é mãe de três filhas, 21, 17 e 8 anos.

Elas estão na direção de ônibus de passageiros

Cassiani Regina Maitchuk, 50 anos, trabalha há 20 anos na Araucária Transporte Coletivo Ltda, que cuida de parte das linhas do transporte coletivo da Região Metropolitana de Curitiba. Ela era atendente de ônibus, quando o ex-chefe a viu manobrando com destreza a carreta do pai.

“Eu dirigia a carreta desde os 9 anos. Ele me desafiou a dirigir ônibus e claro que eu aceitei. Meus familiares deram risada, acharam que eu estava brincando quando falei que eu iria dirigir ônibus, mas eu não liguei”.

Cassiani disse que no começo se irritava com as piadas machistas, mas que agora não se afeta mais. “Se eles dizem ‘tinha que ser mulher’, eu respondo com ironia. Digo é que deveria estar em casa lavando roupa”. Hoje, ela dirige as linhas Interbairros 4, Campo Comprido 5 e Vila Verde em horário de pico.

“Temos que meter a cara, sabemos o nosso valor e seguir em frente. Hoje em dia, temos recebido muitos elogios. Os passageiros comentam que as motoristas mulheres nunca buzinam de tão calmas que somos”, diz, sorrindo. Hoje, o maior desafio como motorista de transporte coletivo em Curitiba não é o trânsito, mas sim os assaltos. “O último foi na semana passada. Fui ameaçada com uma faca, enquanto eles fizeram arrastão no ônibus”.

Rosana Paulina da Maia, 40 anos, trabalha na mesma empresa de Cassiani há dez anos. “Entrei como cobradora, função que exerci por dois anos e meio, mas queria ser motorista. Me deram a chance de frequentar a Escolinha da empresa e me tornei motorista. Nâo me vejo fazendo outra coisa”, conta.

Ela diz que os passageiros estão cada vez aceitando as mulheres como motoristas de ônibus em Curitiba. “A gente ouve os comentários elogiando que somos mais calmas, com menos pressa. As mulheres vão marcando o seu lugar. A mulher tem o sonho de ser motorista de ônibus, ou qualquer outra profissão, tem que seguir em frente. Eu tive sempre apoio da família, das minhas filhas, isso também ajudou muito”.

Para Rosana, o maior desafio atualmente, assim como Cassiani citou, são os assaltos: “Dá muito medo”.
Segundo o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp), dos cerca de 3 mil motoristas do transporte coletivo, pouco mais de cem são mulheres.

 

‘As coisas melhoraram quando parei de repetir o estilo masculino de liderar’, diz engenheira

A curitibana Julia da Costa Fortes, 39 anos, trabalha na engenharia civil desde 2007 e diz que apesar dos avanços nos últimos anos, o ambiente da profissão ainda segue bastante machista: “A mulher na engenharia não está numa situação diferente do restante das mulheres em qualquer ambiente de trabalho competitivo, infelizmente. Vemos muitos progressos na igualdade de gênero, mas temos muito o que fazer ainda”.

Ela lembra que quando trabalhou numa empresa grande de engenharia no início da carreira se sentia constantemente testada: “Eles já tinham os valores de cálculos e me pediam o mesmo cálculo para me testar. Isso não acontecia com os homens. Além do assédio, não por parte dos pedreiros, mas dos outros engenheiros. Eu não aguentei a pressão, não tive apoio dos Recursos Humanos. Foi um início da carreira bem tenso”, lembra ela. Hoje ela tem uma empresa de construção e reformas que atua em Curitiba e no Litoral catarinense. “Em 15 anos, me fortaleci, me tornei líder e depois de tentar repetir o estilo de liderança masculino, entendi que como mulher tenho um jeito diferente de coordenar, liderar as equipes. Um jeito feminino. Isso me trouxe confiança que transparece para os outros profissionais”, disse.

A engenheira Célia Neto Pereira da Rosa, que foi a primeira coordenadora do Comitê das Mulheres do Conselho Regional de Engenharia Civil do Paraná (CREA) em 2017, diz que muito foi conquistado, mas há muito para garantir a presença e o respeito das mulheres na profissão. “Com certeza, ainda temos muito a fazer. Precisamos trabalhar com as profissionais que não participam, mas estão no dia a dia no mercado de trabalho. Precisamos valorizar a nossa participação em todos os lugares, seja na associação, na inspetoria, nas comissões e principalmente como conselheiras”, explica ela. Ela ressalta que é importante trabalhar com as estudantes e mostrar que a participação delas é muito importante no crescimento de novas lideranças: “Nas escolas de Engenharia já somos um número bem maior, mas ainda temos um mito no ensino médio e muitas meninas não optam pelo desconhecimento da profissão. Esse trabalho já está começando a ser feito de mostrar que o lugar de Mulher é onde ela quiser”. No Brasil, são 200 mil profissionais registradas em atividades na engenharia.

Sobre o assédio no trabalho, ela admite que é difícil, mas o conselho tem trabalhado na conscientização dos profissionais e dos empregados em obras, mostrando que elas devem ser respeitadas. “Em algumas obras já temos mulheres trabalhando no assentamento de pisos, azulejos e acabamentos em geral e isso tem melhorado o comportamento deles. Orientamos que se houver algum tipo de assédio que seja feita a denúncia”, diz Célia.

 

 
Últimas Notícias
Cotidiano 23 Mar às 08:50
A meta é imunizar 90% de cada um dos grupos prioritários para vacinação de rotina contra influenza
Cotidiano 23 Mar às 07:54
Principal alteração para 2026 é o aumento da faixa de isenção do IRPF para cerca de 15 milhões de brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês
Cotidiano 23 Mar às 07:51
Tragédia aconteceu durante a manhã de domingo e mobilizou equipes de resgate na região
Cotidiano 20 Mar às 09:35
Lançamento destacou o Costelão Recheado, o Café Colonial e uma agenda de shows que se estende por todo o ano
Cotidiano 20 Mar às 08:12
Vítima sofreu traumatismo craniano grave, com exposição de massa encefálica
Cotidiano 19 Mar às 08:30
Estado mantém liderança nacional no abate de frangos e obtém avanços em suínos, bovinos, leite, ovos e piscicultura
Cotidiano 19 Mar às 08:21
Mudança de advogado aproximou acordo do banqueiro com o STF
Trazendo o melhor da nossa cidade e região
Tags Populares
Social
Tecnologia e desenvolvimento