Levantamento da CGN com dados oficiais do governo federal mostra que o Bolsa Família ganhou quase 690 mil novas famílias entre novembro e junho, mas o valor médio pago a cada uma encolheu no mesmo período.
Um levantamento da CGN, com base em dados oficiais da Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mostra que o número de famílias beneficiárias do Bolsa Família não parou de crescer nos últimos meses — justamente no período que antecede a eleição mais disputada dos últimos anos, com votação para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais.
Em novembro de 2025, o programa atendia 18.656.808 famílias em todo o país. Em junho de 2026, mês mais recente com dados fechados, esse número já era de 19.346.823 famílias. São 690 mil famílias a mais em apenas oito meses, um crescimento de 3,7%.
O ritmo de expansão se intensificou justamente na reta final antes das eleições de outubro: somente entre maio e junho deste ano, mais de 263 mil famílias entraram no cadastro do programa.
Chama atenção o movimento inverso registrado no valor médio pago a cada família. Em janeiro de 2026, o benefício médio chegou a R$ 697,77 — o maior patamar da série analisada. De lá para cá, o valor só caiu: R$ 690,01 em fevereiro, R$ 683,75 em março, R$ 678,22 em abril, R$ 678,01 em maio e R$ 677,66 em junho. Uma queda acumulada de R$ 20,11 por família, ou 2,9%, em apenas cinco meses.
Na prática, isso significa que o governo federal ampliou a quantidade de famílias atendidas pelo programa sem ampliar o bolo de recursos na mesma proporção. O valor total repassado às famílias oscilou entre R$ 12,69 bilhões e R$ 13,10 bilhões por mês nesse período — sem acompanhar o crescimento de quase 4% no número de beneficiários.
O resultado prático é simples: mais famílias dividindo um bolo de dinheiro público que não cresceu no mesmo ritmo. Cada família passou a receber, em média, menos do que recebia no início do ano — mesmo com a inflação corroendo o poder de compra no dia a dia, do gás de cozinha ao preço do arroz.
Para especialistas em contas públicas, ampliar o número de beneficiários de um programa social sem o correspondente reforço orçamentário é um sinal de alerta: ou o valor per capita continua encolhendo, ou o governo vai precisar abrir ainda mais o cofre nos próximos meses — o que pressiona as contas públicas justamente no momento em que o país tenta segurar a inflação.
O calendário chama atenção. Os dados mostram aceleração na entrada de novas famílias no programa exatamente nos meses que antecedem a eleição geral de outubro de 2026, quando o Brasil escolhe presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Historicamente, o Bolsa Família — e seus antecessores, como o Bolsa Família original e o Auxílio Brasil — já foi alvo de questionamentos sobre uso eleitoral de programas sociais em anos de disputa nas urnas.
Procurado, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social costuma atribuir a variação nos valores médios a fatores como atualização de dados do Cadastro Único, mudanças na composição familiar dos beneficiários e ajustes de regras de pagamento — sem, no entanto, detalhar por que o crescimento no número de famílias não veio acompanhado de reforço orçamentário proporcional. A CGN mantém o espaço aberto para manifestação do governo federal sobre os números.